Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Amãezilla

Amãezilla sou eu. Metade mãe, metade bicho quando se trata de proteger a minha cria. O meu lado mãe tenta ser sensato e paciente, mas por vezes o lado bicho ganha. Bipolaridades normais disto que é a maternidade.

Amãezilla

Amãezilla sou eu. Metade mãe, metade bicho quando se trata de proteger a minha cria. O meu lado mãe tenta ser sensato e paciente, mas por vezes o lado bicho ganha. Bipolaridades normais disto que é a maternidade.

13
Jan17

Amamentar dói

Margarida Reis Conde

Durante a gravidez, procurei todo o tipo de informação sobre amamentação. Queria muito amamentar e queria fazê-lo em exclusivo até aos 6 meses. Estava consciente de que não há leite melhor do que o nosso para os nossos filhos. Que o nosso corpo responde e produz tudo o que é necessário para alimentar a nossa cria. Estava consciente dos mitos e de que não há leite fraco e também estava consciente-pensava eu- das dificuldades que podia trazer. Mas afinal não estava. Nao me refiro à dor física. É verdade: amamentar dói. Dói no início em que não sabemos o que estamos a fazer (como poderíamos saber se nunca amamentámos ninguém?), dói porque o nosso bebé também não nasce a saber mamar. Sim, nasce com reflexo de sucção, mas não sabe abocanhar o mamilo, nem nós sabemos oferecer-lho da melhor maneira. Amamentar é doloroso, os mamilos ficam em ferida e podem até sangrar, como os meus. Dói tanto que amamentei muitas vezes de olhos cerrados, a morder o lábio inferior e com lágrimas que escorriam pela face. Dói se fizerem mastites, como eu. Dói se fizerem mastites de repetição, como eu fiz... A mama fica dura como pedra, o leite não sai, encaroça, e dói só de tocar... Mas nada disso é comparável ao cansaço emocional. Amamentar desgasta-nos fisicamente e para isso eu estava preparada. Tinha lido muito, sabia que tinha relativa tolerância à dor, sabia também que a dor era passageira, mas não sabia, não tinha lido ou não tinha dado importância, em como amamentar nos desgasta emocionalnente. De repente, eu já não era eu. Eu era apenas as minhas mamas. Tinha perdido o controlo do meu corpo: eu era alimento de alguém. Alguém que parecia insaciável, como parecem todos os recém-nascidos. Mas eu não sabia. A Constança passava o dia pendurada na mama: mamava/adormecia, acordava-a/chorava, voltava a mamar, voltava a adormecer. E assim sucessivamente, umas 20h por dia! A Constança ficava o dia pendurada na mama e o meu corpo assumiu que havia necessidade de produzir muito leite. Mais do que aquele que a Constança conseguia beber. Tudo girava à volta das minhas mamas: a Constança mamava, mas a mama continuava cheia, o leite vazava, eu ficava molhada, a Constança ficava encharcada, tinha de a trocar (ainda bem que estávamos no verão!)! Não havia discos nem protetores que chegassem. Quando a Constança não mamava, tudo continuava a girar à volta das minhas mamas: porque tinha de tirar leite, se não voltava a encaroçar e voltava a fazer mastite! Mas quanto mais tirava, mais produzia, mais a mama vazava, mais o leite encaroçava porque não havia bomba nem bebé capazes de responder a tanta produção. Estava cansada... Já não aguentava passar o dia a amamentar e nos intervalos ainda ter de tirar leite. Fui ler: percebi que estava a sofrer de hiperlactação, ou seja, uma produção excessiva de leite. Era demais! Era tudo demais para mim! Um dia sucumbi ao cansaço e quando acordei mal podia tocar na mama: voltei para o hospital, mastite. Outra mastite... seguiram-se dias com 40 graus de febre mesmo com antibiótico. Massagens atrás de massagens, leite por tudo o que era canto, a Constança chorava, chorava cada vez mais alto, por não conseguir mamar. Além do leite estar encaroçado, o facto de eu estar muito nervosa, inibia a ejeção do mesmo, é tudo uma questão hormonal. Não sei quando, mas um dia a produção estabilizou, a Constança começou a conseguir esvaziar as minhas mamas, amamentar deixou de ser doloroso e finalmente tudo ia correr bem. Mas um pouco antes dos dois meses, a Constança começou a rejeitar a mama. Porquê? Porquê? Estaria doente? Só podia estar doente... Mas não estava. Fomos correr ao pediatra, a Constança estava bem. Ganhava peso, não tinha nenhum sinal de doença, mas não mamava. Tentámos o biberão, mas a Constança também não queria o biberão, chorava só de o ver, chorava só de a colocar na posição de mamar. E chorava muito. Só podia estar doente. Nunca tinha tido um bebé, não fazia ideia do que era ou não normal, e podiam vir todos os pediatras do mundo dizer-me que estava tudo bem que para mim não estava: a minha filha que antes mamava tanto, quase de forma insaciável, agora rejeitava alimentar-se... Como podia estar tudo bem? Voltámos para o hospital. Explicaram-me que por vezes a rejeição da mama está relacionada com as cólicas. Ao mamar os bebés tem um chamado "reflexo gastro-cólico (não tenho a certeza se o termo está correto) que lhes provoca dor. Além disso, como a Constança bolsava, provavelmente isso causava alguma irritação. Mas ia passar... Ia passar... Não era nenhuma doença. Mas como fazer uma mãe desesperada entender isso, perante um filho que rejeita o alimento? Como fazer entender-me que era tudo uma questão de tempo, mais uma fase, que era normal? Naquele momento estava cansada e assustada demais para entender o que quer que fosse. Então continuava a insistir, mas a Constança continuava a chorar, a chorar cada vez mais e mais alto, a ganhar uma aversão à minha mama, ao biberão, a tudo o que servisse para alimenta-la. O pediatra tinha razão, da mesma forma que veio, sem avisar e de um dia para o outro, da mesma forma passou. Um dia a Constança voltou a mamar com gosto, a parecer a mesma menina insaciável de antes , mas esse dia demorou quase dois meses a chegar. A Constança tem 4 meses e meio e tudo o que sinto é que ainda temos um longo caminho a percorrer...

2 comentários

Comentar post